Os velhos do meio do caminho

            Desde que comecei a trabalhar numa escola no Cambuci (em São Paulo), eu vou todos os dias a pé para o trabalho. Sempre vejo as mesmas pessoas nos mesmos lugares na mesma hora. Um dia por semana eu acordo uma hora mais tarde e tudo já me parece muito mudado. Tantas pessoas na rua e tantos rostos estranhos no caminho.

            Assim, nesse mesmo caminho de sempre, uma senhora, ainda perto da minha casa, estava toda manhã a dar comida às pombas. A casa dela era cheia de pombos e gatos, ela era em si um clichê imenso. Lembro-me muito bem dela porque desviava sempre da casa dela com aquele cheiro característico e aquele monte de animais sujando a calçada.

            Um dia ela não estava lá. Nos dias seguintes as pombas e os gatos foram rareando. Na semana seguinte não havia mais nenhum e na outra uma placa de “aluga-se” estava pendurada na casa.

            Outro senhor, esse já perto da escola, tem uma lojinha de eletrodomésticos usados. Sempre tive a impressão que ele me dirigia a palavra quando eu passava. Quando meu mp3 quebrou, tive a confirmação, todos os dias, ele me cumprimentava. Desde pequena fui ensinada a ignorar os homens desconhecidos que falavam comigo, independente da idade. Então seguia reto e eu passava por ele sem desviar o olhar.

            Sem música no meu caminho, comecei a reparar nele, todos os dias ali abrindo a lojinha, com seu carro antigo estacionado em frente com placa anunciando que aquilo também se vende e o sotaque português.

            Um dia ele não abriu a loja, nem no outro, fui tomada por uma aflição imensa, no terceiro dia ele estava lá, de volta, igualzinho. Tive vontade de abraçá-lo e perguntar o que tinha acontecido. Mas segui com olhar fixo para frente, passei por ele e dei o um grande suspiro de alívio.


Livros Herdados

Eu nunca tive muito contato com a Dona Marina. Ela era sogra da prima do meu avô e morreu mês passado. Falando assim, pode parecer que não havia motivos mesmo para nós termos contato, mas é que em Taquaritinga todos se conhecem e parente é parente, não importa se é próximo ou distante. 

A memória mais clara que tenho é dela brigando comigo e com as outras crianças porque a gente arrancava as florzinhas dela para chupar o melzinho (muitas vezes ficávamos decepcionadas quando descobríamos que as formigas tinham chegado antes da gente). Ela adorava as suas florzinhas.

Agora olho aqui do meu lado caixas e mais caixas de livros. Meu pai estava ajudando na remoção das coisas da casa da Dona Marina para doações, os livros eu peguei. Junto com eles, herdo também anotações e dedicatórias. É incrível como as pessoas tão perto de nós, em qualquer lugar, são fascinantes. Cada um, todo um mundo.

Gostei de ver as preferências dela: Paulo Coelho e misticismo (lembro de alguém comentando “a Dona Marina foi fazer o caminho de Santiago da Compostela”); autoras americanas do século XX (a maioria minhas desconhecidas); enciclopédias; livros em inglês e francês, alguns em espanhol; história da literatura e da música; e biografias. Além de pérolas soltas, como uma coleção de obras completas do Poe.

A morte me amedronta muito e me causa um fascínio estranho. Falo e faço piadas sobre ela, como se pudesse me tornar íntima para poder escapar dela. Esses livros que até mês passado eram de outra pessoa e com anotações tão particulares que me dão um outro universo para desvendar, me fazem pensar na injustiça da morte.

A rapidez da vida é a maior das injustiças. Há tanto para se fazer em tão pouco tempo. Mas sei que não fui a primeira nem a última pessoa a sentir essa indignação. Depois de tudo, tentando me conformar, seleciono uns livros para adicionar à minha biblioteca e deixo os outros para doação.