Desde que comecei a trabalhar numa escola no Cambuci (em São Paulo), eu vou todos os dias a pé para o trabalho. Sempre vejo as mesmas pessoas nos mesmos lugares na mesma hora. Um dia por semana eu acordo uma hora mais tarde e tudo já me parece muito mudado. Tantas pessoas na rua e tantos rostos estranhos no caminho.
Assim, nesse mesmo caminho de sempre, uma senhora, ainda perto da minha casa, estava toda manhã a dar comida às pombas. A casa dela era cheia de pombos e gatos, ela era em si um clichê imenso. Lembro-me muito bem dela porque desviava sempre da casa dela com aquele cheiro característico e aquele monte de animais sujando a calçada.
Um dia ela não estava lá. Nos dias seguintes as pombas e os gatos foram rareando. Na semana seguinte não havia mais nenhum e na outra uma placa de “aluga-se” estava pendurada na casa.
Outro senhor, esse já perto da escola, tem uma lojinha de eletrodomésticos usados. Sempre tive a impressão que ele me dirigia a palavra quando eu passava. Quando meu mp3 quebrou, tive a confirmação, todos os dias, ele me cumprimentava. Desde pequena fui ensinada a ignorar os homens desconhecidos que falavam comigo, independente da idade. Então seguia reto e eu passava por ele sem desviar o olhar.
Sem música no meu caminho, comecei a reparar nele, todos os dias ali abrindo a lojinha, com seu carro antigo estacionado em frente com placa anunciando que aquilo também se vende e o sotaque português.
Um dia ele não abriu a loja, nem no outro, fui tomada por uma aflição imensa, no terceiro dia ele estava lá, de volta, igualzinho. Tive vontade de abraçá-lo e perguntar o que tinha acontecido. Mas segui com olhar fixo para frente, passei por ele e dei o um grande suspiro de alívio.
